IA na detecção de câncer e doenças raras

A inteligência artificial (IA) não é mais uma promessa futurista na medicina; ela é uma realidade clínica que está redefinindo o diagnóstico e o tratamento. Como pesquisador especializado e escritor de bestsellers, acompanho de perto a sinfonia de dados e algoritmos que se desenrola nos laboratórios e hospitais. A aplicação da IA, especialmente em áreas de alta complexidade como a oncologia e o universo das doenças raras, tem gerado avanços que salvam vidas e otimizam a jornada do paciente de maneira sem precedentes.

 

Detecção de câncer: O olhar que não cansa

O câncer, uma das principais causas de mortalidade global, exige um diagnóstico rápido e preciso. É aqui que o Aprendizado de Máquina (Machine Learning), com suas redes neurais profundas, se torna um aliado poderoso.

 

Mamografia e imagemologia

Um dos campos de aplicação mais maduros é a radiologia. Algoritmos de IA treinados com milhões de imagens são capazes de analisar mamografias com uma precisão comparável, e em alguns estudos, até superior, à de radiologistas experientes.

  • Caso de uso: Na detecção do câncer de mama, a IA pode identificar padrões sutis de microcalcificações ou massas em estágios iniciais, muitas vezes imperceptíveis ao olho humano em uma primeira análise. Estudos clínicos têm demonstrado que o suporte da IA pode alcançar precisão de até 94,5% na identificação de tumores em mamografias.


  • Aplicações em histopatologia: A análise de lâminas de biópsia, um processo tradicionalmente manual e demorado, é revolucionada pela IA. As redes neurais profundas (como as CNNs) conseguem analisar digitalmente tecidos, identificando e quantificando células tumorais, e mapeando mutações genéticas com precisão superior a 90% em amostras desafiadoras de tumores mamários. Isso não só acelera o diagnóstico, como padroniza a análise em diferentes centros clínicos.

 

Previsão e tratamento personalizado

A oncologia de precisão é impulsionada pela capacidade da IA de processar dados genômicos e clínicos complexos.

  • Predição de risco: Algoritmos conseguem analisar o perfil genético de um paciente (como mutações nos genes BRCA1 e BRCA2) e o histórico clínico para prever o risco de desenvolvimento de câncer, permitindo intervenções preventivas mais rigorosas.
  • Oncologia personalizada: No tratamento, a IA avalia o perfil genético do tumor e correlaciona-o com as respostas a milhares de tratamentos já observados. Isso ajuda os médicos a selecionar a terapia mais eficaz, seja uma imunoterapia ou um inibidor de tirosina-quinase, transformando o tratamento em uma estratégia molecularmente guiada.

 

Doenças raras: A agulha no palheiro genético

Doenças raras afetam uma pequena parcela da população, mas representam um desafio imenso: o diagnóstico pode levar anos, a chamada “odisseia diagnóstica”, devido à raridade e à complexidade das mutações genéticas envolvidas. A IA é o farol nessa neblina.

 

Acelerando o sequenciamento genômico

A maioria das doenças raras é causada por mutações genéticas únicas. A análise manual de dados provenientes do Sequenciamento de Nova Geração (NGS) é extremamente custosa e demorada.

  • Estudo de caso: Em programas como o 100.000 Genomes Project no Reino Unido, a IA é usada para vasculhar vastos bancos de dados de DNA, identificando variantes genéticas raras que, de outra forma, passariam despercebidas. A tecnologia transforma dias ou semanas de análise manual em horas.

  • Análise de fenótipos: Além da genética pura, a IA pode interpretar as características físicas e clínicas (fenótipos) dos pacientes. Protótipos de assistentes de IA estão sendo treinados para correlacionar a manifestação clínica de uma criança com possíveis diagnósticos genéticos raros, acelerando a tomada de decisão clínica e reduzindo o tempo até o tratamento adequado.


Diagnóstico metabólico raro

A IA tem se mostrado particularmente útil no diagnóstico de doenças metabólicas raras, onde mutações genéticas afetam o metabolismo do paciente.

  • Exemplos práticos: Ao analisar dados complexos de sequenciamento completo do exoma (WES) ou do genoma (WGS), a IA consegue pinpointar mutações específicas que causam esses distúrbios, facilitando o início de dietas ou terapias de reposição enzimática que são críticas para a sobrevivência e qualidade de vida do paciente.


Aplicações clínicas reais e o fator humano

Apesar do entusiasmo, a IA na clínica deve ser vista como um co-piloto, não como um substituto do médico. O sucesso das aplicações clínicas reais reside na parceria entre o algoritmo e o especialista.

 

Otimização da jornada e gestão hospitalar

As aplicações da IA se estendem para além do diagnóstico, otimizando a eficiência operacional dos hospitais.

  • Gestão de leitos: Sistemas preditivos de IA estimam o tempo de permanência hospitalar e otimizam a alocação de leitos, melhorando o fluxo cirúrgico e reduzindo custos operacionais (em um caso, a redução do tempo médio de internação foi de 11 para 7 dias).

  • Monitoramento de pacientes crônicos: Para pacientes com doenças crônicas ou respiratórias, a IA analisa dados de wearables e sensores, prevendo crises ou a necessidade de internação com alta precisão. Isso permite intervenções preventivas, resultando em uma taxa de hospitalização significativamente menor.


Desafios éticos e de validação

A rápida adoção da IA levanta questões cruciais:

  1. Dependência tecnológica: Estudos alertam para a possibilidade de médicos experientes terem uma queda no desempenho de detecção de câncer ao voltarem a trabalhar sem o apoio da IA, reforçando a importância do uso consciente e da manutenção da competência humana.

  2. Viés e dados: A precisão da IA depende da qualidade e da representatividade dos dados de treinamento. Algoritmos treinados em populações limitadas podem falhar na generalização para grupos étnicos ou regiões distintas. A validação científica rigorosa é fundamental.

Em suma, a IA é uma força transformadora na medicina, oferecendo velocidade e precisão no diagnóstico de doenças complexas. Seus estudos de caso em oncologia e doenças raras provam que, ao amplificar as capacidades humanas, estamos entrando em uma era de cuidado mais inteligente, preditivo e personalizado.

 

Fontes

BRASIL. Instituto Nacional de Câncer. Estimativa 2024: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2024. Disponível em: [Acesso à fonte do INCA].

DR. GUSTAVO SCHVARTSMAN. Inteligência artificial no diagnóstico e tratamento do câncer. [S.l.]: Dr. Gustavo Schvartsman, 2025. Disponível em: https://mittechreview.com.br/ia-na-oncologia/.

FIOCRUZ. Pesquisa mostra expansão de aplicações de inteligência artificial contra o câncer. Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), 2024. Disponível em: https://www.grupohpa.com/pt/media/media-center/publicacoes/hpa-magazine/hpa-magazine-22/ia-oncologia/.

LABNETWORK. Microsoft testa inteligência artificial para acelerar diagnóstico de doenças raras. [S.l.]: LabNetwork, 2025. Disponível em: https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BJHR/article/download/72466/50796/178457.

QUALICORP. O papel da IA no diagnóstico e tratamento de doenças. [S.l.]: Qualicorp, 2024. Disponível em: https://bjihs.emnuvens.com.br/bjihs/article/download/4235/4316/9407.

TECMUNDO. Médicos pioraram na detecção de câncer por dependência da IA, revela estudo. [S.l.]: TecMundo, 2025. Disponível em: https://portugues.medscape.com/viewarticle/ia-est%C3%A1-mesmo-deteriorando-habilidades-cognitivas-dos-2025a1000u9c.

UPFLUX. Inteligência Artificial na Saúde: aplicações, benefícios e tendências para o setor. [S.l.]: UpFlux, 2025. Disponível em: https://a3data.com.br/noticias/da-consulta-ao-prontuario-como-a-inteligencia-artificial-esta-revolucionando-a-gestao-hospitalar/.