Uma história antiga, talvez apócrifa, mas com uma ressonância filosófica perturbadora, narra a reação do rei egípcio Thamus ao pharmakon — o remédio e o veneno — da escrita. Quando o deus Thoth apresentou a escrita à humanidade, celebrando-a como um meio de fortificar a memória e a sabedoria, Thamus respondeu com uma cautela profética: “Esta invenção produzirá o esquecimento nas almas dos que a aprenderem, pois deixarão de exercitar a memória. Confiam nos caracteres escritos, exteriores a eles, e não se lembrarão mais por si mesmos. O que ofereceste não é um remédio para a memória, mas para a lembrança.”
O monarca temia que um fluxo de informação, mesmo rudimentar, desfigurasse a própria natureza do conhecimento e do saber. Sua preocupação era com a qualidade e a internalização.
Do telégrafo elétrico de Samuel Morse, que fez a velocidade da luz vencer o ritmo do cavalo e do navio, aos algoritmos de Inteligência Artificial Generativa (IAG) que hoje criam textos, imagens e sons indistinguíveis da criação humana em nanossegundos, a humanidade não apenas quebrou os diques da escassez de informação, como também submergiu em uma torrente. A IA não é apenas um consumidor do fluxo; ela é o seu mais potente e produtivo agente de criação.
O fluxo de informação mudou. Ele não apenas acelerou; ele alterou sua direção, sua forma molecular, seu valor e, fundamentalmente, seu impacto sobre a identidade e a sociedade. Nosso objetivo é desvendar essa transformação: a jornada da informação como um bem escasso e caro, transmitido de forma linear (do emissor ao receptor), para sua condição atual de recurso hiperabundante, difuso, personalizado e muitas vezes tóxico — um fenômeno regido pela economia da atenção e mediado pela Inteligência Artificial.
Este artigo é uma investigação profunda sobre a arquitetura invisível que rege nossa realidade contemporânea. Combinaremos a perspectiva do historiador para mapear as rupturas, o rigor do cientista para decifrar os mecanismos técnicos e o olhar do analista social para entender as implicações desde a polarização democrática até a fusão iminente com a neurotecnologia, onde a IA se torna a ponte entre o cérebro e a rede. A era da informação não é sobre ter acesso, mas sobre a luta por **filtrar, verificar e, acima de tudo, focar**, em um mundo inundado por criações algorítmicas.
Histórico e linha do tempo: As grandes rupturas do fluxo
A história da humanidade pode ser recontada pelas revoluções na velocidade e no alcance do fluxo informacional. Houve quatro grandes rupturas, cada uma desestabilizando a ordem social anterior:
A escrita e a codificação (c. 3200 a.C.)
A transição da oralidade para a escrita (cuneiforme, hieróglifos) marcou a primeira grande externalização da memória. O conhecimento deixou de ser efêmero e dependente do ritual mnemonista para se tornar um objeto que podia ser armazenado, acumulado e transportado através do tempo e do espaço. Contudo, o fluxo era lento, a cópia era manual e a informação, controlada por uma elite de escribas, padres e reis.
A imprensa de tipos móveis (Século XV)
A invenção de Johannes Gutenberg, por volta de 1440, quebrou o monopólio da Igreja e da elite sobre a produção de textos. De repente, a informação se tornou replicável em massa e, crucialmente, barata (EISENSTEIN, 1979). Foi a primeira automação do fluxo. A produção de livros saltou de milhares para milhões em poucas décadas, alimentando o Renascimento e o Iluminismo.
O telégrafo elétrico (século XIX)
Se a imprensa acelerou a cópia de documentos, o telégrafo elétrico, de Samuel Morse (1837), acelerou a transmissão de notícias. O espaço e o tempo foram desacoplados. A informação sobre um evento na Europa podia chegar à América em horas, não em semanas (CAREY, 1989). Esta invenção inaugurou a comunicação de massa e plantou a semente da vigilância e do controle do fluxo, como notado pela Kaspersky (2015).
A internet e a comunicação digital (final do século XX ao presente)
A Internet transformou o fluxo de unidirecional em multidirecional e onipresente. Contudo, o marco mais recente e mais profundo é a ascensão da Inteligência Artificial. A IA não apenas facilita a comunicação (busca, tradução), mas a super-automatiza e personaliza. Os algoritmos de machine learning (ML) e de recomendação tornaram-se os novos porteiros invisíveis, decidindo o que cada indivíduo vê, lê e acredita, transformando o receptor em um alvo de influência algorítmica constante.
Fundamentos científicos e técnicos: A matriz matemática e o desafio da IA
Para entender o fluxo moderno, precisamos revisitar a teoria matemática da comunicação de Claude E. Shannon (1948) à luz dos desafios da Inteligência Artificial.
A informação como entropia negativa: A base do treinamento de LLMs
A definição de Shannon da informação não está ligada ao significado, mas à redução da incerteza, ou o grau de surpresa que uma mensagem carrega. Shannon propôs que a informação pode ser medida quantitativamente em unidades chamadas bits, sendo a quantidade de informação inversamente proporcional à probabilidade de ocorrência da mensagem. A medida dessa incerteza é chamada entropia.
- Conexão com a IA: Esta matemática é a espinha dorsal dos Grandes modelos de linguagem (LLMs) e da IAG. Um LLM não entende o significado humano; ele é, fundamentalmente, um “motor de probabilidade” que calcula qual é o próximo item (palavra, token) mais provável, com base na entropia do vasto corpus de treinamento. A IA é uma máquina de manipular a informação de Shannon (probabilidade de ocorrência), mas falha em garantir o significado humano.
O legado do canal e a limitação semântica da IA
A revolução digital resolveu o problema do Nível A (técnico) da Teoria de Shannon, que trata da transmissão precisa de símbolos. No entanto, a crise atual é aprofundada pela IA nos problemas que o próprio Weaver reconheceu em sua obra:
- Nível B (semântico): Quão precisamente os símbolos (muitas vezes gerados pela IA) carregam o significado desejado? A IA pode gerar bilhões de palavras fluidas, mas a falta de garantia de facto ou verdade nas suas “alucinações” demonstra a falha do Nível B na comunicação mediada por modelos probabilísticos.
- Nível C (Efetividade): Quão efetivamente o significado recebido (incluindo o significado sintético gerado por IA) influencia a conduta do receptor? A otimização algorítmica para engajamento (focada no Nível A e B técnico) tem o efeito colateral de influenciar a sociedade (Nível C) de formas muitas vezes polarizadoras ou nocivas.
A IA, portanto, é a manifestação técnica da superabundância que nos força a confrontar o abismo entre *informação* (dados) e *sabedoria* (significado e valor).
Implicações contemporâneas: A riqueza da informação, a pobreza da atenção e a ascensão do editor algorítmico
A ascensão da internet e das redes sociais criou o cenário paradoxal de Herbert A. Simon (1971): a riqueza da informação leva à pobreza da atenção.
O paradoxo da atenção e o poder da Recomendação por IA
Em um mundo de fluxo infinito, o recurso escasso é a atenção humana (SIMON, 1971). O sistema que gerencia essa escassez é dominado por algoritmos de recomendação baseados em Deep Learning.
- O algoritmo como editor: Esses algoritmos de IA não são apenas filtros; são editores invisíveis com poder editorial global. Ao priorizarem o conteúdo que maximiza o engajamento e o tempo de permanência na plataforma (a métrica de ouro), eles ativamente selecionam e amplificam. Estudos mostram que conteúdos de alta carga emocional e, frequentemente, desinformadores, performam melhor nessas métricas, sendo exponencialmente mais distribuídos pela IA (SELZY, 2024).
- Bolhas, câmaras de eco e polarização: A personalização extrema, um produto direto da IA de aprendizado de máquina, aprisiona o usuário em câmaras de eco e bolhas de filtro (PARISER, 2011). O algoritmo de IA, em sua busca por eficiência, segmenta o mundo em micro-públicos, intensificando a polarização e a fragmentação da esfera pública. Além disso, o constante bombardeio de estímulos mediado por IA sobrecarrega o Sistema 2 (o pensamento lento de Kahneman, 2011), promovendo a fadiga cognitiva e decisões impulsivas (ABES, 2025).
A inversão da confiança e o risco democrático acelerado por IA
A transição para o fluxo horizontal corroeu a confiança nas fontes tradicionais (EBC, 2019).
- Microsegmentação e manipulação: O escândalo Cambridge Analytica (SILVA, 2021) confirmou o uso da IA para análise de big data e microsegmentação de eleitores. A IA instrumentalizou o fluxo para manipular a esfera pública com precisão cirúrgica, relativizando a verdade em arenas discursivas digitais (UFSM, 2024). A IA Generativa apenas acelera essa capacidade ao permitir a criação em massa de narrativas personalizadas e falsas.
Controvérsias, debates e mitos: A falácia da “IA neutra”
A controvérsia central é que a IA, o principal motor do fluxo moderno, é frequentemente vista como neutra.
O mito da neutralidade algorítmica
A ideia de que a IA é um mero canal objetivo deve ser refutada.
- A IA como agente de mediação: Os sistemas de IA e seus algoritmos são agentes de mediação ativa (LÉVY, 2021). Eles são a incorporação de decisões humanas, vieses de dados históricos e valores corporativos (engajamento/monetização). Se o dado de treinamento reflete racismo ou sexismo, o algoritmo de IA o amplifica e o perpetua no fluxo, moldando a cultura e a política. O problema da desinformação e da polarização, acelerado pela IA, ameaça a coesão social (UFF, 2025).
A responsabilidade e o risco existencial da IA no fluxo
O debate de regulamentação se intensifica. Se a IA, através da IAG, pode criar “infodemias” perfeitas (OPAS, 2020), a responsabilidade não pode mais recair apenas sobre o usuário.
- Regulamentação e transparência: Há uma pressão global por maior moderação de conteúdo e transparência algorítmica. O futuro exige que as empresas de IA justifiquem como seus modelos de linguagem e seus sistemas de recomendação influenciam o fluxo, a fim de mitigar a amplificação de conteúdo perigoso ou polarizador.
Cenários futuros: A comunicação sintética e a neuroconvergência da IA
O futuro dos fluxos de informação aponta para uma convergência extrema, onde a Inteligência Artificial não apenas processa, mas se torna o próprio meio de comunicação.
A proliferação da informação sintética e a crise da autenticidade
O crescimento da IAG e do conteúdo sintético (deepfakes, textos gerados por LLMs) é a principal tendência.
- Inundação de símbolos: A IAG tornará a produção humana de informação estatisticamente insignificante. O fluxo será dominado por símbolos gerados por máquinas. A crise da autenticidade será o desafio do século. Se tudo pode ser simulado de forma convincente pela IA, a verificação da verdade transcende a checagem humana, exigindo mecanismos técnicos de proveniência digital (talvez blockchain) para distinguir o humano do artificial e o real do simulado.
A fusão neurotecnológica e o domínio do fluxo pessoal pela IA
O próximo salto será a consolidação das Interfaces Cérebro-Máquina (ICMs) (FORBES, 2023), com a IA no centro da tradução.
- IA como tradutora neural: A neurotecnologia, impulsionada pela IA, promete traduzir sinais cerebrais em comandos ou textos. A IA atuará como o middleware que transforma a intenção neural em fluxo de informação digital (CASA FIRJAN, 2025). O pensamento se torna um comando direto, eliminando o gargalo da interface física.
- Desafios éticos e a privacidade neural: A possibilidade de “ler” intenções ou pensamentos (decodificação neural mediada por IA) levanta dilemas éticos sem precedentes (MIT Tech Review, 2025).
- Identidade e Autonomia: Se a IA sintetiza nosso pensamento e o transmite, a autonomia e a autenticidade da nossa identidade comunicacional são desafiadas. A fronteira entre o pensamento interno e o fluxo externo desaparece.
- Propriedade dos dados neurais: A privacidade se expandirá para a privacidade neural. Os dados mais íntimos do nosso cérebro se tornarão parte do Big Data, sob o controle de algoritmos de atenção. O futuro fluxo de informação será o fluxo dos nossos próprios pensamentos, e a IA será a porta para esse novo canal.
- Identidade e Autonomia: Se a IA sintetiza nosso pensamento e o transmite, a autonomia e a autenticidade da nossa identidade comunicacional são desafiadas. A fronteira entre o pensamento interno e o fluxo externo desaparece.
O foco perdido, a IA e a missão do século
Em 1949, a Teoria Matemática da Comunicação nos ensinou que a informação era uma questão de capacidade de canal. Setenta anos depois, a Inteligência Artificial, a nova mestre da abundância, prova que o problema é a capacidade de foco e de julgamento ético. O fluxo de informação, acelerado e saturado pela produção algorítmica, mudou de uma corrente que nutria o conhecimento para um oceano que ameaça afogar a razão.
O desafio do nosso tempo não é o acesso, mas o custo de oportunidade imposto pela IA de atenção (SELZY, 2024). A verdadeira crise é de um sistema que, ao priorizar o engajamento emocional e a conformidade tribal para otimizar o algoritmo, amplifica a desinformação e fragmenta a realidade compartilhada (UFSM, 2024).
A lição central é a necessidade de uma alfabetização informacional que transcenda a capacidade de ler. Precisamos de uma alfabetização algorítmica entender como a IA molda o que vemos.
A tarefa cívica do século XXI é resgatar o que o rei Thamus temia: a sabedoria que surge da internalização e da reflexão (o Sistema 2), resistindo à lembrança efêmera impulsionada pelo feed algorítmico. O futuro da sociedade e da democracia não dependerá da velocidade da fibra óptica, mas sim da nossa capacidade humana de pausar o fluxo da IA, questionar sua fonte e reconstruir, ativamente, um terreno comum de confiança e verdades básicas compartilhadas. A arquitetura da realidade pode ser invisível, mas a responsabilidade de construir sua fundação ética e racional é visivelmente nossa.
Fontes
- ABES (Associação Brasileira das Empresas de Software). A sociedade na era digital: impactos e transformações contemporâneas. 2025. Disponível em: https://abes.org.br/a-sociedade-na-era-digital-impactos-e-transformacoes-contemporaneas/. Acesso em: 11 dez. 2025.
- CAREY, J. W. Communication as Culture: Essays on Media and Society. New York: Routledge, 1989.
- CASA FIRJAN. Neurotecnologia e inovações na Interface Cérebro-Máquina. 2025. Disponível em: https://www.casafirjan.com.br/pilulas-de-conteudo/neurotecnologia-e-inovacoes-na-interface-cerebro-maquina. Acesso em: 11 dez. 2025.
- EBC (Empresa Brasil de Comunicação). Polarização política e “fake news” impactam confiança no jornalismo. 2019. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2019-06/polarizacao-politica-e-fake-news-impactam-confianca-no-jornalismo. Acesso em: 11 dez. 2025.
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- SHANNON, C. E. A Mathematical Theory of Communication. The Bell System Technical Journal, v. 27, n. 3, p. 379–423, 1948.
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- UFF (Universidade Federal Fluminense). A desinformação como prática política em contexto de crises climáticas: entre a profusão conceitual e a polarização nas redes sociais. 2025. Disponível em: https://periodicos.uff.br/contracampo/article/view/64037. Acesso em: 11 dez. 2025.
- WEAVER, W. Recent Contributions to the Mathematical Theory of Communication. In: SHANNON, C. E.; WEAVER, W. The Mathematical Theory of Communication. Urbana: University of Illinois Press, 1949.
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Para uma análise mais visual sobre a relação entre a sociedade da informação e as mudanças tecnológicas, confira o vídeo SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO E TRANSFORMAÇÃO DIGITAL no YouTube.





